sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


                                                     


                                       "Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima"
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

(Clarice Lispector)
                           

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

No ringue da vida!




                              
                                              
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um grande passeio. Visita lugares, pessoas, e só permanece, enquanto tudo parece estar bem.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um palco. Vai, da tragédia à comédia, num só ato, e, quando não há holofotes, nem aplausos, chora Shakespeare.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um “Indiana Jones” modernizado. Busca os caminhos mais difíceis, e recusa o que faz bem.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um picadeiro. Torna-se palhaço de pequenos e variados públicos, fazendo piadas de todos, sem nunca ter um só alguém no camarim.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um grande suplício. Acorda, e permanece sem dormir, de mau humor, destilando azedume, por onde passa, com quem convive.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um grande aprendizado. Concentra o olhar em tudo que pode apreender e aprender, chegando irritar as pessoas próximas.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, uma novela. Passa a vida inteira, achando que pode começar, terminar, recomeçar, o que quer, quando quer, independente do outro, dos outros.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um cemitério de “pobres vítimas da natureza”. Por isso, nada faz – não acerta, nem erra -, e ainda reclama da vida que tem (“Ó vida! Ó céus!”).
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um termo conhecidíssimo: “soy contra”. Não importa contra o quê, ou quem – sente necessidade de discordar, sempre, mesmo sem argumentação.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, uma grande fuga de si mesmo. No começo, se embriaga, se droga, e, depois, já não precisa mais de estímulos externos: foge sozinho.
Eu sei que tem gente que vive assim, e de todo jeito. Mas não é sobre essa gente que quero escrever – eu, que me sinto no direito de escrever sobre o que penso, pois também faço parte dessa gente.
O que quero escrever, agora, é que eu sei também que tem gente que vive, considerando a vida, um grande ringue. Feito eu, você também deve conhecer várias pessoas que, “a troco de nada”, saem na porrada – física, ou verbal. Enquanto a criatura 'desabafa', o alvo silencia, tentando descobrir os motivos da violência toda. Motivos - sempre há, para todo tipo de interpretação. E o que, antes, era ambiente de convívio, torna-se um ringue – a casa foi atingida por um raio fulminante, e não há o que salvar, para onde correr.
Como diz um amigo, “nem vou entrar, aqui, no metro da questã”. Já não me importam os motivos que levam alguém a tornar a vida, um constante ringue. O que eu estranho é que nunca vejo quem está habituado a bater lutando com quem está habituado a bater também. O que observo é alguém agredindo – física, ou verbalmente, ou “ambas as duas” coisas – alguém que, quase sempre, não revida (pode ser que, infelizmente, esteja habituado a apanhar). São zonas de conforto diferentes – parece. Se ambos lutassem (espancassem), no ringue da vida, criado de um momento para outro, talvez, “do caos, surgissem as estrelas” (né, Nietzsche?). Realmente, não sei. Tanto quanto posso, fujo desses embates – profissional, e, mais ainda, pessoalmente. Não temo só o outro – temo a mim mesma, que, em momento de desequilíbrio, desconheço o pior de mim.
Mas é preciso que estejamos – todos – preparados para o ringue da vida, “a qualquer momento, em edição extraordinária”. Se não criamos, participamos da luta do ringue (sem recebermos convite prévio), e não há como fugir do olhar fulminado pelo ódio do outro. Fazer o quê? Não sei – realmente, não sei, não sei tanto, que nem sei o que pensar, para saber menos ainda. É bom sabermos, isso sim, que qualquer coisa que dissermos, manifestarmos, será usada, com toda certeza, contra nós – às vezes, o choro causa mais porrada.
Ainda assim, eu não enxergo, no ringue, o cruel torturador e a pobre vítima indefesa. Na minha visão estrábica, são dois seres humanos que fazem, a cada respiração, escolhas de vida. Lembro de frases que li, há muito tempo, sem guardar autoria: “Pessoas feridas ferem pessoas. Cada um dá o que tem. Você faz suas escolhas, e suas escolhas fazem você”. E só.